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Mensagens

Há dias assim

Vou fazer segredo daquilo que não sei, vou dizer a todos que esperem por mais, que não desistam, que sei a cor que mais gostas, que sei o gesto que mais aprecias, que sei o que não faço por ti, quem é que vai cair neste meu engodo, desejo ou seja lá o que for, quem é que ouve o que o tenho para dizer, já é quase noite e ainda ando por aqui, respostas, não tenho, já falta pouco, dizem, há dias assim, que me deixam só, sem voz, sem esperança, com uma certeza, aquela que para mim guardo, e que só tu sabes sem nunca te dizer.

Quem és tu?

Tenho uma opinião sobre quem me rodeia, sou crítico e até preconceituoso ao que vejo e ao que ouço, sei o meu nome, um ou vários dos meus desejos, uma vontade, um propósito, um objectivo, tenho sempre uma verdade e uma mentira escondida, tenho algo que me identifica perante todos e todos sabem quem sou, nem todos me dizem nos olhos aquilo que pensam sobre mim, mas, quem sou eu? Que interessa ter um nome, uma profissão, uma cor de pele, uns olhos castanhos e um cabelo escuro ou claro, que interesse existe se sou alto, baixo, gordo ou magro, que interesse tem tudo isso se não souber quem sou realmente, e quem sou eu? Que interesse tem outros saberem quem sou, se eu próprio não consigo identificar a figura que vejo ao espelho, que interesse tem se estou bem na vida, se tenho tudo o que a minha doença quer, se vejo a minha vontade acima de tudo e de todos, se no fundo não sei quem sou, sou pronto a identificar-te e a dizer quem és mas humanamente incapaz de me olhar por dentro e saber, quem…

Somos, ou não...

E não é que, por vezes, somos obrigados a olhar para os outros e reconhecer que a verdade existe nos seus olhos mas está longe dos seus actos. Somos, ou não, chamados a olhar por estes, a interpelá-los, a questioná-los, somos, ou não, os responsáveis pela lógica dos seus actos, pela sua vontade, somos, ou não, parte de uma sociedade comum, somos, ou não, o seu espelho, somos, ou não, a sua revolta..., somos, ou não, capazes de fazer a diferença, somos, ou não..., seremos mesmo..., seremos mesmo dotados de apreço pelos mais egoístas, seremos capazes de perdoar a mentira, a desonestidade, seremos capazes de aturar o desejo, a cobiça, seremos capazes de violar a nossa verdade, seremos humildes em reconhecer o erro, seremos nós tudo isto, somos, ou não...

Tudo e nada

Quando o teu corpo tocou uma parte do meu e fez tornar um recanto de ser num sol acordado e instante pecado do sereno, o desejo acontece por fim, foi um mar que te deu e o teu canto mudou, a verdade arrancou, no meu peito aterrou e o meu sopro morreu, dá-me um quarto vazio, vou deixar-te na tua fala e na pele que há em mim e de que nada sabes, vou tornar a ser, tornar a ver, vou ser o gigante adormecido, a música que me faz, o texto que me escreve, sem palavra, só melodia, só gesto, não sou mais que uma gota de luz ou uma estrela que cai, sou tudo e nada, não sou mais que um gracejo de Deus e um jardim de beijos sem idade. É tudo e é nada.

Faz Sentido

A crueldade do silêncio e da solidão desperta em mim um sentimento sem sentido, a verdade é que cada dia me pertenço a mim próprio, cada dia da minha rotina me encolho de palavras e actos, cada dia me olho sem me conhecer, cada dia me refugio no meu mundo, cada dia me penitencio por isso, cada dia luto para mudar, se consigo ter essa percepção, então o caminho ainda não está perdido, apenas desviado, se consigo falar contigo, então é porque tenho um amigo, se consigo ver-te, então agradeço por isso, se consigo ouvir-te, então agradeço as tuas palavras, sejam elas através da chuva ou do sol, do barulho do mar ou do bater de uma porta, se estás aí e se me entendes então é porque a vida tem significado, então é porque a vida faz sentido.

Palavra

Gostava de ter o poder de mudar o rumo destas palavras, gostava de olhar para elas e dizer o quanto as admiro, o quanto as venero, gostava de senti-las e observá-las, fechado com elas numa sala repleta de cultura e silêncio, de olhos abertos e ouvidos moucos, janelas corridas e planos que nada valem ao seu saber, palavras inteiras ou pela metade, palavras que entendem as outras, vozes surdas que lutam sem consequência, abraços e gestos sentidos, pensamentos levados pela força de um vento que jamais os pode devolver, passado que é o presente do nosso triste futuro, restam as palavras, as ditas palavras, as tais, aquelas por quem não esquecemos.

Quem sabe

Não existe palavra que traduza o sentimento que trago dentro de mim, não existe verdade possível que possa clarificar a mentira deste momento, no fundo do corredor encontro o silêncio, o escuro e o vazio, pelo caminho vou revendo rostos cravados no meu íntimo, vou olhando para um lado e para o outro e descubro o que por descobrir ficou, lentamente percorro este caminho turtuoso, devagar vou sentido cada passo, cada lembrança, cada momento, todos vão aparecer, falta saber quando, tenho sempre em mente a escolha de seguir em frente ou de voltar atrás, por vezes convém olhar para trás para ter a certeza de que nada me persegue, por vezes convém parar, reflectir, ponderar para depois continuar, o fim da linha está próximo, pelo menos o escuro acaba já ali....quem sabe, quem sabe.