Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

O Não

A palavra Não, uma vez que a conhecemos, somos incapazes de a esquecer, é capaz de tudo e ausente de nada, é a palavra que retrata o castigo enquanto mais pequenos e a palavra proibida numa verdade que queremos descobrir enquanto crescidos, depois deixa de fazer sentido e pensamos na volta que lhe podemos dar, na versão do momento, podemos confrontar o Não com o querer, com a vontade da mudança, com o espelho da indiferença, olhemos os 10 mandamentos, apenas num deles não é usada a palavra não, honrarás teu Pai e tua Mãe, em todos os outros podemos ler e interpretar a palavra Não como negação de algo, a verdade é que a despedida do Não é triste e deixa-nos no vazio, todos precisamos dele, e acreditem, ele precisa de ser dito, é uma das palavras mais bela, forte e sincera que conhecemos.

Preciso

Já foram os dias e as horas, continuas a escrever antes de tudo o mais, pensar em algo mais realista, mais mundano, o homem que assa as castanhas ou aquela senhora que vende as meias de que todos precisam, gosto de descer a rua e sentir o cheiro da calçada, gosto da terra e da areia molhada, gosto do dia quando está frio e com o sol à espreita, gosto do teu colo e de te ver no colo, a vida é mesmo assim, por vezes injusta e capaz de despedidas nunca ditas, por vezes justa e vingativa, por vezes cruel e imaginária, e outras vezes, somente, digna. Gosto deste som, deste amor que é teu, gosto do teu saber, na verdade o que escrevo, nada, nada que possa levar alguém a pensar na luta desmedida pela dignidade, até onde vou, não sei, qual o caminho, onde estás, aparece para que te veja, se tu precisas, eu também preciso.

Há dias assim

Vou fazer segredo daquilo que não sei, vou dizer a todos que esperem por mais, que não desistam, que sei a cor que mais gostas, que sei o gesto que mais aprecias, que sei o que não faço por ti, quem é que vai cair neste meu engodo, desejo ou seja lá o que for, quem é que ouve o que o tenho para dizer, já é quase noite e ainda ando por aqui, respostas, não tenho, já falta pouco, dizem, há dias assim, que me deixam só, sem voz, sem esperança, com uma certeza, aquela que para mim guardo, e que só tu sabes sem nunca te dizer.

Quem és tu?

Tenho uma opinião sobre quem me rodeia, sou crítico e até preconceituoso ao que vejo e ao que ouço, sei o meu nome, um ou vários dos meus desejos, uma vontade, um propósito, um objectivo, tenho sempre uma verdade e uma mentira escondida, tenho algo que me identifica perante todos e todos sabem quem sou, nem todos me dizem nos olhos aquilo que pensam sobre mim, mas, quem sou eu? Que interessa ter um nome, uma profissão, uma cor de pele, uns olhos castanhos e um cabelo escuro ou claro, que interesse existe se sou alto, baixo, gordo ou magro, que interesse tem tudo isso se não souber quem sou realmente, e quem sou eu? Que interesse tem outros saberem quem sou, se eu próprio não consigo identificar a figura que vejo ao espelho, que interesse tem se estou bem na vida, se tenho tudo o que a minha doença quer, se vejo a minha vontade acima de tudo e de todos, se no fundo não sei quem sou, sou pronto a identificar-te e a dizer quem és mas humanamente incapaz de me olhar por dentro e saber, quem…

Somos, ou não...

E não é que, por vezes, somos obrigados a olhar para os outros e reconhecer que a verdade existe nos seus olhos mas está longe dos seus actos. Somos, ou não, chamados a olhar por estes, a interpelá-los, a questioná-los, somos, ou não, os responsáveis pela lógica dos seus actos, pela sua vontade, somos, ou não, parte de uma sociedade comum, somos, ou não, o seu espelho, somos, ou não, a sua revolta..., somos, ou não, capazes de fazer a diferença, somos, ou não..., seremos mesmo..., seremos mesmo dotados de apreço pelos mais egoístas, seremos capazes de perdoar a mentira, a desonestidade, seremos capazes de aturar o desejo, a cobiça, seremos capazes de violar a nossa verdade, seremos humildes em reconhecer o erro, seremos nós tudo isto, somos, ou não...

Tudo e nada

Quando o teu corpo tocou uma parte do meu e fez tornar um recanto de ser num sol acordado e instante pecado do sereno, o desejo acontece por fim, foi um mar que te deu e o teu canto mudou, a verdade arrancou, no meu peito aterrou e o meu sopro morreu, dá-me um quarto vazio, vou deixar-te na tua fala e na pele que há em mim e de que nada sabes, vou tornar a ser, tornar a ver, vou ser o gigante adormecido, a música que me faz, o texto que me escreve, sem palavra, só melodia, só gesto, não sou mais que uma gota de luz ou uma estrela que cai, sou tudo e nada, não sou mais que um gracejo de Deus e um jardim de beijos sem idade. É tudo e é nada.

Faz Sentido

A crueldade do silêncio e da solidão desperta em mim um sentimento sem sentido, a verdade é que cada dia me pertenço a mim próprio, cada dia da minha rotina me encolho de palavras e actos, cada dia me olho sem me conhecer, cada dia me refugio no meu mundo, cada dia me penitencio por isso, cada dia luto para mudar, se consigo ter essa percepção, então o caminho ainda não está perdido, apenas desviado, se consigo falar contigo, então é porque tenho um amigo, se consigo ver-te, então agradeço por isso, se consigo ouvir-te, então agradeço as tuas palavras, sejam elas através da chuva ou do sol, do barulho do mar ou do bater de uma porta, se estás aí e se me entendes então é porque a vida tem significado, então é porque a vida faz sentido.