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Mensagens

Do cosmos ao sonho

Nesta manifestação de infinitos, percorri um caminho curto entre o cosmos e o sonho adormecido, de todo este movimento e num único pedido, parei o tempo e escrevi um texto em que nenhum dos dois quer saber de onde veio, de que é feito ou de quem é a culpa. Apresentam-se, ausentam-se, afagam, saúdam, ignoram ainda, concordam e discordam e no palco do extraordinário, sofrem, sofrem de inquietude porque nenhum dos dois imagina viver um dia de cada vez à espera de saber o que existe para lá deste silêncio. Por isto, no fim da cada linha, recolhem a casa e, nos braços desse querer, entregam-se à dança, desarrumam os desejos e aguçam o lápis, rodopiam encantos, confessam almas e sombras, alimentam sentidos e tempestades, imaginam a arte e o verso, porque a vida, esta vida, não lhes basta.

Amargo

Instiga-me este amargo que se abraçou em mim, inquieta-me não tecer as palavras que possam reflectir esta urgência premente que ainda sinto e que estreita em mim a veemência da tua presença.Atento no teu silêncio, permaneço na verdade deste sentido. O que foi, o que ainda está por dizer, o gesto que ainda não vivi, o gesto que apenas sonhei, esse desejo que permanece e fica na consciência de um pensamento, na verdade de uma lua que nunca mais se deixa cair, que é sombra, mas que persiste camuflada na distância e no caminho que não quero impor, antes viver.
É o que é, a simplicidade do carinho, do olhar, do ser, do estar, do realizar, do persistir, do perder, do voltar a ter, do agir, do querer transformar, do afecto, e de tantos outros prenúncios sem fim de movimento e de tempo, hoje, aqui e agora, nesse abraço que ficou por enlaçar e no beijo doce que entregas à minha face, nessa demora que é tão própria de ti, fica a banda desenhada, fica a fantasia demorada e a escultura inacabada. 

Momento

Esse momento que perdura numa lágrima que não cai, numa voz que não é a própria, recortado no senso que nada tem de comum, invulgar, rigoroso e de olhar feito espelho, momento de sons e sílabas nunca compreendidos, os que com ele se envolvem, devolvem sem esforço a força de uma vida que se forma no dia-a-dia, que parte e que fica, para de novo partir e para de novo ficar. Assim amanhece a rotina que não é a rotina que nunca foi e que jamais o será, porque a palavra não cala e a pintura não apaga, o que posso eu desenhar não desenhando, o que posso eu escrever não escrevendo, é este o momento, o momento do pedido, escrevam por mim...

Medo

Embarco de novo nesse medo, o medo que reinventa o prazer de navegar este mar nunca antes navegado, distingo na perfeição o desenho que, repentinamente, se torna sopro de desejo onde tudo acontece. Um de nós sussurra "como é bom!" e o outro cai sobre as estrelas da espera e ruma para um vento desconhecido. Outro de nós admite "que saudade!" e desata as amarras do desejo e lança a âncora na lua. A nossa nova morada. É então dobrado o cabo da boa esperança a golpes de crateras e cometas, de meteoros e pontos de exclamação, depois, depois pintamos o corpo no mar da tranquilidade, sentimos um beijo sossegado e olhamos os corais cá de cima, liberta-se então o cheiro, impregnando tudo aquilo que é consequência, a interrogação persiste e o ponto final clama por entrar neste enredo sem fim, sem limite e sem verbo, onde a busca pelo acento é feita por adjetivos solitários , onde o medo realça a escuridão, onde o medo pega ao acaso na palavra e transforma-a no texto da vida,…

A visão do sonho

Adormeço enquanto estás, deito-me na tua presença e sinto o calor do teu lugar enquanto me aconchego nos teus braços, cruzo as pernas nas tuas e ignoro os olhos fechados e a respiração que bate nos meus olhos, chego mais perto, sinto mais perto, como se a minha alma se unisse ao teu corpo desnudo de preconceito e de desejo, como se entrasse em ti e de ti soubesse o que ainda não descobriste, o que ainda não sabes, sob a forma da minha sombra, que me vela o sono, que me leva à intemporalidade e para não me deixar cair na tentação, separo, delicadamente, o meu corpo da minha alma, então fico com os olhos da alma e vejo o corpo entrar em ti, no teu destino, no teu ser, a união acontece e revela-se o olhar cúmplice, meigo e destemido, acontece o gesto, o toque, o sentir da pele aveludada, os nossos corpos numa única sensação desarrumam o desejo e enfrentam a dança do crime perfeito, sitiados os sentidos, tudo se torna infinito, fora de mim vejo o meu Eu e o teu Tu, é o nosso corpo que vej…

Palavras

Viajo sem fim à vista ou sempre do mesmo modo, viajo pelas palavras e pelos pensamentos que aqui vou lendo, a viagem é sempre a mesma, sinónimo de descoberta, de novo, de aventura, sobre o lápis vou deixando a minha marca, o escrito da minha consciência, deixo-me levar pela dobra das palavras e por aquilo que elas podem ou não significar, deixo-me levar pelas cores que me mostras e que desconhecia existir, pelos sons e pelas formas, crio os novelos,  lembro de alguns testemunhos, desdobro em palavras e invento as legendas, no diálogo que mantenho com o silêncio, vou descobrindo o comum da gramática e o já esquecido poeta da arte e do enredo, do dizer só e do só escutar, o extremo e intangível sagrado e profano, o novo dicionário e o mais antigo testamento, digo, então, o que nunca disse a ninguém, imito aquilo que ouço no meu pensamento e por mero acaso, emerge, das malhas mais profundas, esse desejo que é sonhar-te, que é gostar-te, que é amar-te, assim vão as palavras que jamais ser…

Memórias

O cheiro da terra, a sua cor avermelhada, esse sol que se esconde no horizonte, este silêncio que se estende na memória de um dia que ainda não vivi, a fotografia que ainda não tirei, a música que ainda não ouvi, a rua que ainda não percorri, a viagem que ainda não fiz, o reencontro que ainda não chorei, com quantos traços se pode apagar a memória, com quantos instantes se pode escurecer o querer, o sentir, onde estás tu, por onde andas, levanta-te e mostra-te, deixa-me agradecer, deixa-me viver, deixa-me entender esta culpa, esta raiva solitária, deixa-me figurar perante ti, deixa-me romper o equívoco, rasgar o silêncio, deixa-me meditar no abrigo da dor, da tua dor, deixa-me ser o verso e a melodia que o acompanha, deixa-me ficar na cor dos teus olhos, no limite da tua cumplicidade, deixa-me ser tudo em ti, minha triste e futura memória.