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Mensagens

Tempo

Abertos que estamos a um mundo de constante mudança, saciados e projectados num caminho de revolta, convidados à esperança na certeza de um desejo que procura, desesperadamente, um rumo certo. Na manhã nos abra os horizontes de um anúncio de consolação em cada dia, porque quando a noite chegar, não temeremos, pois trilhamos caminhos de amor e concórdia, de plenitude e justiça, porque o vazio já cansa, é tempo de dizer ao tempo que o mar e céu não tem tempo, é altura de guardar o portador da voz, de ser humilde no convite, de encher os corações de rebuçados doces e cheios de vida, é o tempo para ter tempo de nós, é tempo de cantar o silêncio e dobrar o sol sobre si mesmo, é tempo de olhar o outro e viver o outro, é tempo de prometer a dança e o tempero das palavras, é tempo de brincar na estrada e cair na pedra dura, é o tempo da magnificência e do beijo sossegado, é tempo de um novo momento, é tempo de persistir na felicidade, é tempo...

Saudade

A saudade de ter no destino a crença de chegar a nenhum lugar, saber sem sequer o ter sentido, senti-lo como ninguém e vivê-lo porque faz todo o sentido, fica a tristeza triste por pensar nesta alegria que de tamanha tristeza se veste de um fado sem destino mas de lugar marcado na essência de um coração adormecido. Eterno e cúmplice nos teus conselhos para ser o que eu quiser e olhar a vista de um horizonte que deixou de ser criança e adormeceu no teu sorriso, assim vai o destino da saudade, a voz que não entoa, aquela que canta e lamenta sem ter sequer um qualquer lamento, aquela que ouve no silêncio uma voz que não é a minha e que canta por alguém cá dentro, a incerteza de que nada mais certo existe para além daquela grande certeza que é não estar certo de nada. Para onde vamos senão para o piano, para a melodia de um quarto vazio, de sombras e espaços em branco, não te esqueças de fechar a porta, a noite ainda demora e o teu segredo está guardado na metade de mim, esta saudade...

Página

Caminho pelo livro que acabo de desenhar, não sei de quantas folhas é feito porque todos os dias viro uma e começo outra, sigo a intemporalidade do tempo, essa página que separa o ontem e o que sou hoje. O momento em que começo a linha que tudo transmuta, os dias, as horas e os segundos, este sentir que é eterno, intenso, repleto de mim e de ti, tudo numa simples linha, a linha que imagino como caminho e que acalenta a alma, perdi algumas palavras por esse caminho, mas quem hoje não caminha comigo, não lê metade de mim, porque hoje eu sou isto e muito mais, não estou sozinho no meu silêncio, e quem caminha ao meu lado acalma-me a alma. Quem está, encontra-me, quem esteve, ficou parado e não quis vir, quem veio, escuta os sussurros das minhas palavras, quem virá, a próxima página o dirá. Da natureza de uns e de outros se tece o argumento deste livro. Em uns e outros, a arte que se escreve e que se expõe, alada e complexa. Assim vão as páginas da vida.

Delicada Intimidade

Do preâmbulo se faz a inquietação de uma beleza que se transforma em metáfora dos meus pensamentos, durante a lua cheia e perante uma presunção inquietante sou chamado a um sofisma que interpreta a arte numa delicada intimidade com a alma, sou chamado ao silêncio do meu incessante grito, sou chamado a uma pintura sem tela, onde a escrita e o pincel se cruzam na iniciação de uma matemática sem razão, onde o acordo obriga a uma urgência de afectos, de desenhos nunca desenhados, de testamentos nunca testemunhados, de exorcismos meditados, de ilhas por descobrir. Acerca de anjos, acerca do corpo, acerca do meu eu, acerca da origem, do tempo no desenho, do doce oculto em redor da babilónia, redonda que é a vida, fica a visão da dor, do ego e do desenlace. Relevo saber o caminho mais fácil, nada é mais simples de tão enigmático.

Ler-te

Leio-te porque sei que estás aqui comigo, sei que esperas, nesse ponto de partida, no antes de tudo, no antes da vida, do som e das palavras, para vires ao meu abraço. Leio-te nos olhos e no perfeito olhar, partindo da provocação que só o mistério da alma pode desvendar, perdi-me a considerar o antes, esse lugar onde já estive, onde já fui, mas do qual não tenho lembrança, se bem que lembrança não é a palavra certa, porque esse é, certamente, um lugar que tenho intrínseco em mim mas o qual não alcanço, e é nesse lugar que quero estar, naquele que posso, talvez, um dia encontrar.

Diálogo

No dia em que as palavras me faltam, sou o desenho encurralado na própria deixa do papel, apoio as minhas mãos neste livro a que chamo vida e tento desfolhar uma página de cada vez, tento ler o que o silêncio me escreve e escutar as palavras deste mudo e surdo sentimento, deste diálogo inconcluso entre a leitura e a escrita, o que resulta no extremo, é um manifesto de culto pelo belo e incomparável sabor a letras. Esta é a verdade que se lê e que se ouve de palavras que emergem do corpo e do desenho, palavras que não são mais que um pedaço de segredo, do que vi no teu olhar, é tudo o que afago para este dia sem cor e parco de sentidos. Hoje careço dos teus verbos, mesmo que sejam proferidos no sossego mútuo do nosso estigma, careço desse sentido que dás só ao olhares para mim pelo canto desses olhos, de uma intensidade sem fim, premente de dias, de segundos incessantes de infinito, dessa transcendência de nós e em nós, substância na forma e no ser, na sensualidade e na consciência. Fi…

Alma

Esse grito que nos sussurra o corpo, o que agasalhamos com roupa quando alguém nos despe com o olhar, essa indisfarçável intuição que na impetuosidade faz do silêncio o elegante folhear do destino. Essa alma que solta sempre a mesma risada, que encurrala o papel entre o lápis e o saber, que é capaz de vir até junto de nós, capaz de levitar o sonho da escrita e a verdade da consequência, a mesma alma que procura na viagem o vestido certo para cobrir a lua de desejo, a mesma alma que tempera o mar com areia salgada, a alma que serve o fim da vida eterna, a mesma alma que pede desculpa sem nunca se desculpar, a alma que beija o desassossego dentro de um único e perfeito olhar, a alma que se recolhe e se perde na perfeição inútil, essa mesma...a alma.