Descubro, enfim, que estás aqui comigo, não te espero mais porque te consigo ver, nesse ponto de origem, no antes do tudo, no antes da vida, do som e da cor, para vires até ao meu abraço. Hoje perdi-me a pensar nesse antes, onde já estive, e do qual só tenho um ténue sorriso, onde anunciada a noite, fica o deslumbre da tua janela despida de pedaços de lua cheia, de um modo que o silêncio e o sentir de ti se alimentam, de um modo que em ti o rio corre sem margens e solta-se em delírio o sussurro da entrega. Aparenta ser um desfile de cores que desafiam um súbito mar de emoções, temperadas com olhares e sorrisos de palavras nunca ditas. Poucas fracções de segundo e segue-se o silêncio, um cheiro agridoce invade-me os sentidos, e um manto de afecto desce em mim, é o preâmbulo da vida. Se é facto ou mera ilusão, não sei dizer, é apenas o que vi nesse testemunho de indagar o que me antecedeu. Na tua aproximação eu voltarei a sentir esse antes, poderei vê-lo e até tocá-lo, a essência desse …
"nenhum outro ruído é tão inquietante como aquele que sobra das palavras que se não dizem." Júlio Montenegro