Deixas
tanto de ti em mim. Deixas o teu cheiro, a tua natureza, a pele que ainda
sinto. Deixas o gosto do abraço. Deixas o apelo e o sonho desgovernado. Deixas
o corpo que chora e a história mal contada. Deixas a sombra e a certeza. Deixas
o nada e o tudo para sempre. Deixas o teu mundo tão longe. Deixas a tua voz, o
momento e o canto da tempestade. Deixas o mar sozinho e o céu tão perto. Quanto
tempo fomos, quantos dias, quantas estradas e quantas vidas serão, quantos
desertos e quantas metades, quanto silêncio e quantas vontades. Ninguém sabe,
ninguém tão perto. Sei de ti e sei que deixas tanto de ti em mim. Isso
basta-me.
"nenhum outro ruído é tão inquietante como aquele que sobra das palavras que se não dizem." Júlio Montenegro