Saudade, se
é, que seja forte, intensa, violenta e excessiva no sentir, que seja levada até
às lágrimas ou até à profunda verdade. Se é saudade, que seja doce na
admiração, que seja simples de gestos e vontades, que seja em forma de silêncio
ou que se pronuncie num grito inaudível. Se é saudade, então que seja cúmplice
no corpo e no desejo, que seja de orgasmos mútuos e proibidos, que seja a
beleza do que é belo, o suor do sofrido e a palavra da solidão. Se é saudade,
que seja no tempo eterno do abraço, no enigma do beijo e na litigância dos
sentidos. Se é saudade, que seja o presságio comovido do olhar que deixa
escapar a dor e irrompe do coração uma espécie de tumulto. Se é saudade, então
que seja um texto escrito a quatro mãos, que ame sem cura e sofra sem remédio.
Se é saudade, que seja de ti e de mais ninguém.
"nenhum outro ruído é tão inquietante como aquele que sobra das palavras que se não dizem." Júlio Montenegro