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No Quarto


Tudo o que preciso é de uma página em branco, é deste silêncio que invade o escuro do meu quarto, tudo o que preciso é olhar em volta e nada ver, assim como agora, assim como te escrevo, de costas voltado a ouvir o som das palavras que tenho dentro do meu pensamento, de repente tudo começa a ganhar vida, do escuro do meu quarto desperta uma lenta e demorada penumbra que vai abrindo o meu horizonte, que me mostra a existência de algo para além da escuridão, começa a ficar mais forte, mais intenso, o silêncio, continua a fazer-se ouvir, ele e o som das palavras que me deixam acordado neste quarto de incertezas, será possível que os meus olhos consigam ver o mundo deste pequeno e escuro lugar, esse mundo imenso que espera por mim, esse mundo que ainda tem tanto para me dizer, que ainda tem tanto para ouvir. Por esta altura a claridade que daqui emana já me deixa diferenciar onde estou e por onde quero caminhar, o sítio parece apertado e com uma única saída ou direção, mas isso era se eu estivesse dentro do meu quarto e não dentro do meu coração.   

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Nunca

Quero ver as janelas abertas e as portas por abrir, quero saltar o pensamento que estou a ter, quero ver a luz na madrugada e o silêncio que daí advém, os dias cinzentos são os mais belos pois tenho a certeza que depois deles a luz reinará, hoje, caminho pelo chão que jamais pisei, faço deste trajecto o meu ser, tenho o poder dominante e a intemperança de todo o mal, é mais fácil desistir, é difícil não chorar, não quero ser o primeiro mas também não quero ser o último, não quero ser as lágrimas que vês. Amanheci e vesti-me de preto com um gesto cansado e um olhar pelo deserto, não quero ser o tempo que acabou, quero ser o rosto de um velho e a sua perseverança, quero ser o infinito tocável, quero ser o espaço vazio e as sombras de que falam, quero ser mais alto que o muro para espreitar o teu mundo, quero ser as palavras proibidas, traídas, que fogem e dizem....não me deixes nunca.