Certo dia, ao encontro do meu ser, num dia sem qualquer significado ou provérbio, enquanto caminhava pelo desconhecido, enquanto pensava no destino, enquanto sentia e falava sobre o de sempre, eis que te deslumbro, eis que os meus olhos se cruzam nos teus, eis que o meu pensamento fica vazio de tudo, livre, sem mentira e sem destino, eis que num breve e único momento tudo se une, tudo faz sentido, tudo tem nome, tudo tem significado, acompanhas-me desde então, falas comigo diariamente, usas a minha linguagem, o meu gesto, sentes cada respiração, cada bater, cada verdade, sigo-te e encontro-te sem esforço, na penumbra da minha existência, relanço os dados e faço da vida uma página sem fim, felicidade é ter-te enquanto posso, uma lição de vida, um significado só nosso, finalmente sei o que isso é, finalmente consegui encontrar-te, consegui sentir-te, consegui falar-te, finalmente sou o Eu e Tu, finalmente somos o princípio e o fim, o primeiro e o último, obrigado por estares aqui ao meu lado, obrigado meu querido e amigo silêncio...
Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.
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