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Princípio

Descubro, enfim, que estás aqui comigo, não te espero mais porque te consigo ver, nesse ponto de origem, no antes do tudo, no antes da vida, do som e da cor, para vires até ao meu abraço. Hoje perdi-me a pensar nesse antes, onde já estive, e do qual só tenho um ténue sorriso, onde anunciada a noite, fica o deslumbre da tua janela despida de pedaços de lua cheia, de um modo que o silêncio e o sentir de ti se alimentam, de um modo que em ti o rio corre sem margens e solta-se em delírio o sussurro da entrega. Aparenta ser um desfile de cores que desafiam um súbito mar de emoções, temperadas com olhares e sorrisos de palavras nunca ditas. Poucas fracções de segundo e segue-se o silêncio, um cheiro agridoce invade-me os sentidos, e um manto de afecto desce em mim, é o preâmbulo da vida. Se é facto ou mera ilusão, não sei dizer, é apenas o que vi nesse testemunho de indagar o que me antecedeu. Na tua aproximação eu voltarei a sentir esse antes, poderei vê-lo e até tocá-lo, a essência desse aroma estará contida em ti e ao libertar-se, todos os sentidos se estimulam pela dádiva que é recordar o princípio.

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Nunca

Quero ver as janelas abertas e as portas por abrir, quero saltar o pensamento que estou a ter, quero ver a luz na madrugada e o silêncio que daí advém, os dias cinzentos são os mais belos pois tenho a certeza que depois deles a luz reinará, hoje, caminho pelo chão que jamais pisei, faço deste trajecto o meu ser, tenho o poder dominante e a intemperança de todo o mal, é mais fácil desistir, é difícil não chorar, não quero ser o primeiro mas também não quero ser o último, não quero ser as lágrimas que vês. Amanheci e vesti-me de preto com um gesto cansado e um olhar pelo deserto, não quero ser o tempo que acabou, quero ser o rosto de um velho e a sua perseverança, quero ser o infinito tocável, quero ser o espaço vazio e as sombras de que falam, quero ser mais alto que o muro para espreitar o teu mundo, quero ser as palavras proibidas, traídas, que fogem e dizem....não me deixes nunca.