Descubro, enfim, que estás aqui comigo, não te espero mais porque te consigo ver, nesse ponto de origem, no antes do tudo, no antes da vida, do som e da cor, para vires até ao meu abraço. Hoje perdi-me a pensar nesse antes, onde já estive, e do qual só tenho um ténue sorriso, onde anunciada a noite, fica o deslumbre da tua janela despida de pedaços de lua cheia, de um modo que o silêncio e o sentir de ti se alimentam, de um modo que em ti o rio corre sem margens e solta-se em delírio o sussurro da entrega. Aparenta ser um desfile de cores que desafiam um súbito mar de emoções, temperadas com olhares e sorrisos de palavras nunca ditas. Poucas fracções de segundo e segue-se o silêncio, um cheiro agridoce invade-me os sentidos, e um manto de afecto desce em mim, é o preâmbulo da vida. Se é facto ou mera ilusão, não sei dizer, é apenas o que vi nesse testemunho de indagar o que me antecedeu. Na tua aproximação eu voltarei a sentir esse antes, poderei vê-lo e até tocá-lo, a essência desse aroma estará contida em ti e ao libertar-se, todos os sentidos se estimulam pela dádiva que é recordar o princípio.
Na verdade, o verdadeiro medo está presente em cada gesto egoísta, em cada afronta, em cada pensamento individual, em cada mentira...o verdadeiro medo é consumido, é vivido e bem tratado por nós... "O homem justo não é o que não comete nenhuma injustiça, mas aquele que, podendo ser injusto, não o quer ser." (Mandro)
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