Deixas
tanto de ti em mim. Deixas o teu cheiro, a tua natureza, a pele que ainda
sinto. Deixas o gosto do abraço. Deixas o apelo e o sonho desgovernado. Deixas
o corpo que chora e a história mal contada. Deixas a sombra e a certeza. Deixas
o nada e o tudo para sempre. Deixas o teu mundo tão longe. Deixas a tua voz, o
momento e o canto da tempestade. Deixas o mar sozinho e o céu tão perto. Quanto
tempo fomos, quantos dias, quantas estradas e quantas vidas serão, quantos
desertos e quantas metades, quanto silêncio e quantas vontades. Ninguém sabe,
ninguém tão perto. Sei de ti e sei que deixas tanto de ti em mim. Isso
basta-me.
Prometo continuar a guardar este lugar que se destina a ti, desgovernado e permissivo vai o querer, tenho saudade do que me traz por cá, por entre muros, fronteiras e descobertas vou comprando cada letra que falta do alfabeto, anos, foram precisos anos para esconder-te, e só por isso existes e estás dentro de mim, serei o que de mim fizeres porque por entre anjos e demónios sinto-te e continuarei a sentir-te, ainda que caiam os céus, por ti tudo e por ti também, e é, simplesmente, mágico, sentir e ter-te novamente.
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