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Momento

No momento em que a sombra fica sozinha, em que o bilhete escrito nada diz, uma espécie de céu aparece e nele retrata um pedaço de mar num dia devagar, uma luz inquieta devolve uma voz num secreto adeus sem aceno, levas-me no momento e escondes-te no tempo, perdes-te em mim numa estrada infinita, num lugar distante e num desejo apertado, num suspiro escondido, num encontro despido e abraçados no nada, num olhar infinito de um beijo que não basta, deixas a memória das palavras entre a luz e a escuridão, deixas o eu e o tu perdidos e sós, deixas o medo e a paz de mãos dadas, deixas a loucura e o desejo de um coração em revolta, deixas o momento, deixas o vazio preenchido, a vontade realizada, deixas os dias e as noites, deixas o fogo e o espaço, deixas o salto por fazer, deixas as mãos cheias de tudo, deixas o encontro da estrela com o sol, deixas a nuvem que começa e o silêncio da guerra, deixas o passado e o presente, fica o momento. 

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Nunca

Quero ver as janelas abertas e as portas por abrir, quero saltar o pensamento que estou a ter, quero ver a luz na madrugada e o silêncio que daí advém, os dias cinzentos são os mais belos pois tenho a certeza que depois deles a luz reinará, hoje, caminho pelo chão que jamais pisei, faço deste trajecto o meu ser, tenho o poder dominante e a intemperança de todo o mal, é mais fácil desistir, é difícil não chorar, não quero ser o primeiro mas também não quero ser o último, não quero ser as lágrimas que vês. Amanheci e vesti-me de preto com um gesto cansado e um olhar pelo deserto, não quero ser o tempo que acabou, quero ser o rosto de um velho e a sua perseverança, quero ser o infinito tocável, quero ser o espaço vazio e as sombras de que falam, quero ser mais alto que o muro para espreitar o teu mundo, quero ser as palavras proibidas, traídas, que fogem e dizem....não me deixes nunca.