No momento em que a sombra fica sozinha, em que o bilhete escrito nada diz, uma espécie de céu aparece e nele retrata um pedaço de mar num dia devagar, uma luz inquieta devolve uma voz num secreto adeus sem aceno, levas-me no momento e escondes-te no tempo, perdes-te em mim numa estrada infinita, num lugar distante e num desejo apertado, num suspiro escondido, num encontro despido e abraçados no nada, num olhar infinito de um beijo que não basta, deixas a memória das palavras entre a luz e a escuridão, deixas o eu e o tu perdidos e sós, deixas o medo e a paz de mãos dadas, deixas a loucura e o desejo de um coração em revolta, deixas o momento, deixas o vazio preenchido, a vontade realizada, deixas os dias e as noites, deixas o fogo e o espaço, deixas o salto por fazer, deixas as mãos cheias de tudo, deixas o encontro da estrela com o sol, deixas a nuvem que começa e o silêncio da guerra, deixas o passado e o presente, fica o momento.
Visto daqui pareces distante, tudo faz sentido e é finito quando os teus olhos pronunciam o desenho desenhando e as tuas palavras escrevem escrevendo, é o teu corpo que deslumbro, alto e legítimo, como na anunciação, fecundado no espírito, como no alfa, que vagueia no éden ou noutro jardim qualquer. É esse o teu corpo, dentro do desenho e fora das palavras ou dentro das palavras e fora do desenho, deixas-me perdido...na busca do labirinto do tempo, a viajar pelo sentido dos sentidos.
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