Sobre mim, não sei o que dizer, o que transmitir, nem sei se terei algo para deixar, sou assim, não sou aquele que se vê ao espelho, sou aquele que caminha contigo e que fala no escuro, sou aquele que te sente e que te traz no coração, sou aquele que conhece a tua casa e gosta dela, que olha para ti todas as manhãs, que fala contigo, que se esconde de ti, mesmo sabendo que de ti nada se pode esconder, sou aquele que lava a cara num olhar, num gesto, sou aquele que olha com respeito e admiração, sou aquele que atravessa, que se assusta e que chora, sou o do sorriso que contagia, sou aquele que caminha para trás quando assim é preciso, sou aquele que canta quando ninguém está a ouvir, sou aquele que diz bem quando quer dizer mal, sou aquele do silêncio e da sua virtude, não sou a verdade nem a mentira, nem tão pouco sei se existem, sou assim e no final, não sou mais nem menos do que tu.
Visto daqui pareces distante, tudo faz sentido e é finito quando os teus olhos pronunciam o desenho desenhando e as tuas palavras escrevem escrevendo, é o teu corpo que deslumbro, alto e legítimo, como na anunciação, fecundado no espírito, como no alfa, que vagueia no éden ou noutro jardim qualquer. É esse o teu corpo, dentro do desenho e fora das palavras ou dentro das palavras e fora do desenho, deixas-me perdido...na busca do labirinto do tempo, a viajar pelo sentido dos sentidos.
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