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A cegueira

Soube de uma mãe que nunca disse ao filho que era cego, então ele fazia todas as tarefas de casa que sua mão lhe pedia, cozinhava, limpava, ia às compras, o mundo aos seus olhos era assim e assim seria para toda a gente, irmãos, pai, mãe, amigos, vizihos, já na escola primária se apercebeu que era diferente, pois seus amigos gozavam com a sua situação, a partir daqui, sabendo ele que era diferente de outros, a sua vida mudou, ele ficou com a certeza que o mundo não era visto por todos mas só por alguns, ele era um privilegiado, pois ele sabia como via o mundo, ele entendia o que via, ele vivia na felicidade, para ele, tudo era de uma só cor e todas as pessoas eram iguais, não existia o alto, o magro, o gordo, o feio, o bonito, a cor da pele, existiam as palavras, os cheiros, o vento, as descidas e as subidas, os degraus, o tacto, o carinho, existia a ventura aos seus olhos...,na nossa vida, muitas vezes, de olhos bem abertos nada vemos senão a nossa razão, a nossa emoção, o nosso objectivo, então mais tarde, já crescidos e imbuídos de carácter e dignidade, apercebemo-nos que fomos cegos de ser, de viver, porque o verdadeiro sentido da vida está presente nos olhos do nosso coração, aquele que nada vê mas que tudo sente.  

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Prometo

Prometo continuar a guardar este lugar que se destina a ti, desgovernado e permissivo vai o querer, tenho saudade do que me traz por cá, por entre muros, fronteiras e descobertas vou comprando cada letra que falta do alfabeto, anos, foram precisos anos para esconder-te, e só por isso existes e estás dentro de mim, serei o que de mim fizeres porque por entre anjos e demónios sinto-te e continuarei a sentir-te, ainda que caiam os céus, por ti tudo e por ti também, e é, simplesmente, mágico, sentir e ter-te novamente. 

Ser

Na verdade, o verdadeiro medo está presente em cada gesto egoísta, em cada afronta, em cada pensamento individual, em cada mentira...o verdadeiro medo é consumido, é vivido e bem tratado por nós... "O homem justo não é o que não comete nenhuma injustiça, mas aquele que, podendo ser injusto, não o quer ser." (Mandro)

O labirinto do tempo

Visto daqui pareces distante, tudo faz sentido e é finito quando os teus olhos pronunciam o desenho desenhando e as tuas palavras escrevem escrevendo, é o teu corpo que deslumbro, alto e legítimo, como na anunciação, fecundado no espírito, como no alfa, que vagueia no éden ou noutro jardim qualquer. É esse o teu corpo, dentro do desenho e fora das palavras ou dentro das palavras e fora do desenho, deixas-me perdido...na busca do labirinto do tempo, a viajar pelo sentido dos sentidos.