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Desarrumação

Sinto a tua desarrumação, a angústia do teu silêncio, a verdade do teu olhar, o aceno à janela, a casa fresca numa tarde de verão, o chocolate negro e amargo limão. Saúdo as palavras que não entendo, o mergulho que ainda não tentei, vivo a canção que ainda não sussurraste para mim, a magia de um gesto e o telefone que não toca, a carta que ainda não me escreveste. Sinto a falta de te olhar um passo à frente, da inocência da culpa e da verdade que escondes, sinto falta do lápis com que desenhas o meu sabor, do sossego que preserva a alma, da escuridão que relança a luz do próximo dia, do ego onde pernoitam os anjos e os demónios, sinto falta do estrangeiro que trago dentro de mim, sinto falta do pedaço de corpo que repousa no teu ombro e da forma carinhosa e poética onde desaguam os nossos desejos, sinto falta do medo que se esconde atrás da porta. Não é relevante saber o caminho, relevante é saber como caminhar, relevante é sairmos do limbo, evitar o purgatório e merecer a eternidade…   

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Prometo

Prometo continuar a guardar este lugar que se destina a ti, desgovernado e permissivo vai o querer, tenho saudade do que me traz por cá, por entre muros, fronteiras e descobertas vou comprando cada letra que falta do alfabeto, anos, foram precisos anos para esconder-te, e só por isso existes e estás dentro de mim, serei o que de mim fizeres porque por entre anjos e demónios sinto-te e continuarei a sentir-te, ainda que caiam os céus, por ti tudo e por ti também, e é, simplesmente, mágico, sentir e ter-te novamente.