Sou eu, nesse copo
meio cheio para alguns e meio vazio para outros. Sou eu, esse desenho feito de
sombras que me persegue e que conheço de outras aflições. Sou eu, que realço
por palavras um prenúncio de silêncios mastigados de angústias e medos. Sou eu,
aquele que olha o retrato e que lembra memórias ao acaso. Sou eu, saciado sem o
gosto e sem o abraço de um beijo apertado. Sou eu, aquele que soma as vezes da indiferença,
aquele passageiro em trânsito, o ícaro da ousadia. Sou eu, que renovo a volúpia
e agito a insinuação. Sou eu, que adormeço à deriva e que sossego sem colo. Sou
eu, que admito a saudade mesmo de algo que não existe. Sou eu, que escondo o
desejo na alma despida. Sou eu, que me confesso calado perante o que é belo. Sou
eu, que não quer saber o motivo ou de quem é a culpa. Sou ele, confesso…
Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.
Comentários
Enviar um comentário