Certo
dia disseram-me que a nossa vida devia pautar-se na transformação de tudo o que
é menos bom em bondade. Nesse momento, e com estas palavras, aprendi que o objetivo
de aqui estar teria que ser outro, que a palavra tem um dom, que o seu poder é
enorme para o mal, assim como para o bem. Aprendi que não podia deixar de ser
cuidadoso em relação ao que digo, pois as palavras que profiro demonstram o profundo
do meu coração. Aprendi que é nos outros e com os outros que me posso
encontrar, aprendi que a morte do próprio eu ampliava a ideia do significado da
vida, aprendi que a união fortalece, aprendi que a razão nunca está só, aprendi
que o silêncio também se ouve, aprendi que o arrependimento pode salvar, aprendi
a escutar a alma, aprendi que a gratidão deve ser olhada, que os capítulos
escuros da vida são uma aprendizagem, aprendi que tudo tem duas leituras, aprendi
que a incapacidade de escolher o meu destino é a maior mentira do mundo, aprendi
que o simples é sempre o mais belo, aprendi que um livro deve ser lido pelo
menos duas vezes, aprendi que o amor transforma, imita, chora e permanece, aprendi
que a saudade magoa, aprendi a importância do horizonte, aprendi que o coração
também tem medo e que ninguém consegue fugir dele, mas ainda não aprendi a transformar
tudo o que é menos bom em bondade.
Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.
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