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A visão do sonho

Adormeço enquanto estás, deito-me na tua presença e sinto o calor do teu lugar enquanto me aconchego nos teus braços, cruzo as pernas nas tuas e ignoro os olhos fechados e a respiração que bate nos meus olhos, chego mais perto, sinto mais perto, como se a minha alma se unisse ao teu corpo desnudo de preconceito e de desejo, como se entrasse em ti e de ti soubesse o que ainda não descobriste, o que ainda não sabes, sob a forma da minha sombra, que me vela o sono, que me leva à intemporalidade e para não me deixar cair na tentação, separo, delicadamente, o meu corpo da minha alma, então fico com os olhos da alma e vejo o corpo entrar em ti, no teu destino, no teu ser, a união acontece e revela-se o olhar cúmplice, meigo e destemido, acontece o gesto, o toque, o sentir da pele aveludada, os nossos corpos numa única sensação desarrumam o desejo e enfrentam a dança do crime perfeito, sitiados os sentidos, tudo se torna infinito, fora de mim vejo o meu Eu e o teu Tu, é o nosso corpo que vejo daqui, não dois, simplesmente um, o nosso, como no génesis, vagueando no éden ou em qualquer outro lugar, onde o vento distingue quem anda ao vento, onde as cores e cheiros se misturam, onde aos poucos nos vamos dando forma para de novo partirmos mas sem nunca saber para onde, porque onde quer que estejas, estás comigo, é dentro deste silêncio que chegamos a tempo ou fora de tempo, por fim acordo deste doce e único sentir e fico sem saber quem fala, o corpo ou a alma.

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Nunca

Quero ver as janelas abertas e as portas por abrir, quero saltar o pensamento que estou a ter, quero ver a luz na madrugada e o silêncio que daí advém, os dias cinzentos são os mais belos pois tenho a certeza que depois deles a luz reinará, hoje, caminho pelo chão que jamais pisei, faço deste trajecto o meu ser, tenho o poder dominante e a intemperança de todo o mal, é mais fácil desistir, é difícil não chorar, não quero ser o primeiro mas também não quero ser o último, não quero ser as lágrimas que vês. Amanheci e vesti-me de preto com um gesto cansado e um olhar pelo deserto, não quero ser o tempo que acabou, quero ser o rosto de um velho e a sua perseverança, quero ser o infinito tocável, quero ser o espaço vazio e as sombras de que falam, quero ser mais alto que o muro para espreitar o teu mundo, quero ser as palavras proibidas, traídas, que fogem e dizem....não me deixes nunca.