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Amargo


Instiga-me este amargo que se abraçou em mim, inquieta-me não tecer as palavras que possam reflectir esta urgência premente que ainda sinto e que estreita em mim a veemência da tua presença. Atento no teu silêncio, permaneço na verdade deste sentido. O que foi, o que ainda está por dizer, o gesto que ainda não vivi, o gesto que apenas sonhei, esse desejo que permanece e fica na consciência de um pensamento, na verdade de uma lua que nunca mais se deixa cair, que é sombra, mas que persiste camuflada na distância e no caminho que não quero impor, antes viver.
É o que é, a simplicidade do carinho, do olhar, do ser, do estar, do realizar, do persistir, do perder, do voltar a ter, do agir, do querer transformar, do afecto, e de tantos outros prenúncios sem fim de movimento e de tempo, hoje, aqui e agora, nesse abraço que ficou por enlaçar e no beijo doce que entregas à minha face, nessa demora que é tão própria de ti, fica a banda desenhada, fica a fantasia demorada e a escultura inacabada. 
Sem pressas, sem imposições, apenas para ser revelação do todo e dessa realidade na qual embatemos, sem imaginar, sem pedir, sem desculpas, apenas um novo dia, apenas um novo mundo, não te demores!
 

 

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Nunca

Quero ver as janelas abertas e as portas por abrir, quero saltar o pensamento que estou a ter, quero ver a luz na madrugada e o silêncio que daí advém, os dias cinzentos são os mais belos pois tenho a certeza que depois deles a luz reinará, hoje, caminho pelo chão que jamais pisei, faço deste trajecto o meu ser, tenho o poder dominante e a intemperança de todo o mal, é mais fácil desistir, é difícil não chorar, não quero ser o primeiro mas também não quero ser o último, não quero ser as lágrimas que vês. Amanheci e vesti-me de preto com um gesto cansado e um olhar pelo deserto, não quero ser o tempo que acabou, quero ser o rosto de um velho e a sua perseverança, quero ser o infinito tocável, quero ser o espaço vazio e as sombras de que falam, quero ser mais alto que o muro para espreitar o teu mundo, quero ser as palavras proibidas, traídas, que fogem e dizem....não me deixes nunca.