O olhar que pode
intimidar, que pode fazer viver, esse olhar que descobre o adormecido, que vive
o desconhecido, o olhar sincero, feliz e único que se sente no coração, o olhar
que une duas almas, que olha de olhos fechados, o olhar que conhece as costas, que
passa pelas palavras, que lê nas entrelinhas, o olhar que comove, que não
adultera, que não mente, o olhar da beleza e da metáfora, o olhar que descobre
o sol no caminho de uma folha caída, o olhar amadurecido e de paladar acanelado,
o olhar escuro da noite munido e perfilado de anúncios presunçosos, o olhar
inquieto da intriga, o olhar que nunca foi visto, o olhar sofista, o olhar da
arte e do domingo em descanso, o olhar nómada e fascinante, a força e a cor de
um olhar meigo e doce, a alma de um olhar que se perde num vestido curto ou num
sabor salgado de uma qualquer lágrima de saudade, que dizer do olhar, desse
olhar, do olhar em silêncio, aquele que perturba e que tudo significa,
aquele que jamais se esquece, aquele que substituí a escrita e a
fala, aquele que resume tudo e que em tudo se resume.
Visto daqui pareces distante, tudo faz sentido e é finito quando os teus olhos pronunciam o desenho desenhando e as tuas palavras escrevem escrevendo, é o teu corpo que deslumbro, alto e legítimo, como na anunciação, fecundado no espírito, como no alfa, que vagueia no éden ou noutro jardim qualquer. É esse o teu corpo, dentro do desenho e fora das palavras ou dentro das palavras e fora do desenho, deixas-me perdido...na busca do labirinto do tempo, a viajar pelo sentido dos sentidos.
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