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Não sei...

Não sei, não sei desse barulho, desse longo e intenso barulho que um dia ouvi do teu colo, das escadas que subi, da varanda que espreitei, da viagem que fiz, do decorrer do destino, não sei, não sei desse barulho que só o silêncio consegue entender, que irrompe das cinzas como uma espécie de luar, que deixa pelo chão a sua forma, que declama no palco trágico do meu ser, nesse rosto que descubro de olhos fechados, que comovido, deixa escapar essa dor, essa dor que nos junta, que nos entretece, que nos alia num só e único mundo, não sei, não sei do substantivo, do pronome, não sei da primeira pessoa, ou da terceira, não sei do verbo, nem da alcunha, não sei do preâmbulo, nem desse exercício, o da intimidade, não sei da prosa nem da poesia, não sei da tarde de sol poente, muito para além da rebentação das ondas, não sei até onde consigo ver, não sei viver o dia sem ver a noite, à espera de saber se existe algo para lá destes despojos que a vida insinua, é um desenlace, é a saudade que ainda está para nascer, a inquietação que se agarra ao piano ou a eloquência de uma guitarra que grita notas de inúteis melodias, é a beleza inebriante de uma paisagem africana, é o balanço seduzido pela luz da vela, é a agitação da arte, é fascinante o saber que não sei...
 

 

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Nunca

Quero ver as janelas abertas e as portas por abrir, quero saltar o pensamento que estou a ter, quero ver a luz na madrugada e o silêncio que daí advém, os dias cinzentos são os mais belos pois tenho a certeza que depois deles a luz reinará, hoje, caminho pelo chão que jamais pisei, faço deste trajecto o meu ser, tenho o poder dominante e a intemperança de todo o mal, é mais fácil desistir, é difícil não chorar, não quero ser o primeiro mas também não quero ser o último, não quero ser as lágrimas que vês. Amanheci e vesti-me de preto com um gesto cansado e um olhar pelo deserto, não quero ser o tempo que acabou, quero ser o rosto de um velho e a sua perseverança, quero ser o infinito tocável, quero ser o espaço vazio e as sombras de que falam, quero ser mais alto que o muro para espreitar o teu mundo, quero ser as palavras proibidas, traídas, que fogem e dizem....não me deixes nunca.