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Memórias

O cheiro da terra, a sua cor avermelhada, esse sol que se esconde no horizonte, este silêncio que se estende na memória de um dia que ainda não vivi, a fotografia que ainda não tirei, a música que ainda não ouvi, a rua que ainda não percorri, a viagem que ainda não fiz, o reencontro que ainda não chorei, com quantos traços se pode apagar a memória, com quantos instantes se pode escurecer o querer, o sentir, onde estás tu, por onde andas, levanta-te e mostra-te, deixa-me agradecer, deixa-me viver, deixa-me entender esta culpa, esta raiva solitária, deixa-me figurar perante ti, deixa-me romper o equívoco, rasgar o silêncio, deixa-me meditar no abrigo da dor, da tua dor, deixa-me ser o verso e a melodia que o acompanha, deixa-me ficar na cor dos teus olhos, no limite da tua cumplicidade, deixa-me ser tudo em ti, minha triste e futura memória.

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Prometo

Prometo continuar a guardar este lugar que se destina a ti, desgovernado e permissivo vai o querer, tenho saudade do que me traz por cá, por entre muros, fronteiras e descobertas vou comprando cada letra que falta do alfabeto, anos, foram precisos anos para esconder-te, e só por isso existes e estás dentro de mim, serei o que de mim fizeres porque por entre anjos e demónios sinto-te e continuarei a sentir-te, ainda que caiam os céus, por ti tudo e por ti também, e é, simplesmente, mágico, sentir e ter-te novamente.