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Medo

Embarco de novo nesse medo, o medo que reinventa o prazer de navegar este mar nunca antes navegado, distingo na perfeição o desenho que, repentinamente, se torna sopro de desejo onde tudo acontece. Um de nós sussurra "como é bom!" e o outro cai sobre as estrelas da espera e ruma para um vento desconhecido. Outro de nós admite "que saudade!" e desata as amarras do desejo e lança a âncora na lua. A nossa nova morada. É então dobrado o cabo da boa esperança a golpes de crateras e cometas, de meteoros e pontos de exclamação, depois, depois pintamos o corpo no mar da tranquilidade, sentimos um beijo sossegado e olhamos os corais cá de cima, liberta-se então o cheiro, impregnando tudo aquilo que é consequência, a interrogação persiste e o ponto final clama por entrar neste enredo sem fim, sem limite e sem verbo, onde a busca pelo acento é feita por adjetivos solitários , onde o medo realça a escuridão, onde o medo pega ao acaso na palavra e transforma-a no texto da vida, a vida que nos espera, sem pontos e sem medo.
 

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Nunca

Quero ver as janelas abertas e as portas por abrir, quero saltar o pensamento que estou a ter, quero ver a luz na madrugada e o silêncio que daí advém, os dias cinzentos são os mais belos pois tenho a certeza que depois deles a luz reinará, hoje, caminho pelo chão que jamais pisei, faço deste trajecto o meu ser, tenho o poder dominante e a intemperança de todo o mal, é mais fácil desistir, é difícil não chorar, não quero ser o primeiro mas também não quero ser o último, não quero ser as lágrimas que vês. Amanheci e vesti-me de preto com um gesto cansado e um olhar pelo deserto, não quero ser o tempo que acabou, quero ser o rosto de um velho e a sua perseverança, quero ser o infinito tocável, quero ser o espaço vazio e as sombras de que falam, quero ser mais alto que o muro para espreitar o teu mundo, quero ser as palavras proibidas, traídas, que fogem e dizem....não me deixes nunca.