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Equivoco


Não tenho qualquer intenção de esculpir palavras ou desenhar pensamentos, não tenho e jamais terei o prenúncio de fazer repousar as palavras antes de serem ditas, comovo-me com a felicidade de uns olhos que choram de alegria, intento nos passos a comoção da partida e o gáudio da chegada, repouso as mãos nesse mapa de sentido trágico que comanda o caminho do horizonte, nada acontece ao acaso e o acaso acontece por nada, até para lá do olhar, no palco desse trágico e difuso corpo que não vejo mas que sinto, nada é mais intenso que a intensidade de viver o que nunca foi vivido, nada é mais verdade do que a verdade desconhecida, que saudade dessa viagem que percorre o meu âmago e se deixa levar pelo mar de tormentas, que saudade do cheiro, do aceno, do aperto, do caminhar e do estar só, que saudade desse altruísmo que desfaz o culto do senso comum, que saudade da pintura, da tinta, do traço, do giz e do som sem importância, que saudade do travesseiro e da história que ainda não me contaste, que saudade de romper o equivoco e gritar o silêncio.
 

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Continuar

Na descoberta de uma nova palavra somos confrontados com tantas que não conhecemos que nos apraz dizer que dentro de nós existe sempre algo desconhecido, que neste dia, alguém irá aparecer, falar e dizer qualquer coisa que por nós nunca foi ouvido, a isto chamamos crescer, aprender e respeitar atitudes e comportamentos que desconhecidos podem pronunciar a melhor razão do saber.

Desafio

Desabafo na hora da partida, escolho o tema e ilustro-o num desafio inquietante, percorro a linha e a ideia de conseguir chegar lá, subo e desço as escadas, passo por janelas e portas, umas com e outras sem, ao longe a vista deslumbra um rio que bate no mar e que faz cruzar tormentas dignas de Adamastor, não existe, eu sei, mas é um Desafio, é a escolha do caminho por escolher, aquele que existe ainda sem existir, é a criação, a procura, o prenúncio, é a descoberta da capa pela contra capa, é usar uma perna antes da outra e interiorizar uma certeza, a de que conseguimos desafiar o próprio.    

Nunca

Quero ver as janelas abertas e as portas por abrir, quero saltar o pensamento que estou a ter, quero ver a luz na madrugada e o silêncio que daí advém, os dias cinzentos são os mais belos pois tenho a certeza que depois deles a luz reinará, hoje, caminho pelo chão que jamais pisei, faço deste trajecto o meu ser, tenho o poder dominante e a intemperança de todo o mal, é mais fácil desistir, é difícil não chorar, não quero ser o primeiro mas também não quero ser o último, não quero ser as lágrimas que vês. Amanheci e vesti-me de preto com um gesto cansado e um olhar pelo deserto, não quero ser o tempo que acabou, quero ser o rosto de um velho e a sua perseverança, quero ser o infinito tocável, quero ser o espaço vazio e as sombras de que falam, quero ser mais alto que o muro para espreitar o teu mundo, quero ser as palavras proibidas, traídas, que fogem e dizem....não me deixes nunca.